Com 100M€ do PRR e o projeto Amália como catalisador, Portugal pode formar uma geração de engenheiros de IA e garantir que os dados das empresas nacionais ficam sob controlo português. Mas só temos até 31 de outubro para orientar bem as primeiras candidaturas.
Portugal encontra-se novamente num momento decisivo. Depois de ter defendido aqui no Observador a necessidade de reorientar a reprogramação do PRR para apoiar a inovação empresarial e as PME - em vez de apenas reforçar a Administração Pública (“Reprogramação do PRR: Burocracia ou Inovação?”) - surge agora o Instrumento Financeiro para a Inovação e Competitividade (IFIC), lançado pela Estrutura de Missão Recuperar Portugal e pelo Banco Português de Fomento.
Entre as três linhas de apoio anunciadas, destaca-se a Linha IA para PME, com 100 milhões € para promover a adoção de soluções de Inteligência Artificial.
Porque este momento é histórico
A União Europeia lançou a sua Bússola da Competitividade, os EUA avançam com o Projeto Stargate (500 mil milhões de dólares para IA), a China aposta em modelos próprios como o DeepSeek R1, e outros países também avançam: a França com o Mistral, a Suíça com o Apertusou os Emirados Árabes Unidos com o Falcon.
Todos perceberam que a soberania tecnológica será decisiva na próxima década. Portugal não pode continuar a ser apenas consumidor passivo de tecnologia. O IFIC abre a oportunidade de sermos produtores e não apenas utilizadores.
O que está em jogo
Se as PME dependerem apenas de modelos LLM norte-americanos ou chineses, arriscamos perder a soberania digital e o controlo sobre os dados pessoais e os dados de negócio. Onde ficam armazenados esses dados? Quem lhes pode aceder? Estaremos a violar o RGPD ao transferi-los para clouds fora da UE? E como evitar que modelos públicos em cloud sejam usados contra as próprias empresas através de ataques de AI hacking?
Casos recentes confirmam os riscos:
- DeepSeek (jan. 2025): roubo de 2 mil milhões de tokens.
- OmniGPT (fev. 2025): 34 milhões de mensagens expostas.
- Salesforce Agentforce (set. 2025): fuga automática de emails via prompt injection (CVSS 9.4).
A OWASP já classifica esta vulnerabilidade como o risco nº1 em 2025. Mais de 45% das empresas que usaram IA sofreram fugas de dados no último ano.
A alternativa são os modelos LLM on-premises, open-source e open-weights, que permitem auditoria, controlo e soberania sobre os dados, além de maior transparência. Podem ser usados de imediato em versão pré-treinada ou ajustados via fine-tuning ao contexto específico de cada organização.
Mas há um risco
O Guia de Candidatura ao IFIC apresenta quase só exemplos de ferramentas LLM cloud americanas (Copilot, Gemini, Claude). Não há referências a implementações com modelos open-source portugueses ou europeus, a soluções on-premises que mantenham dados em território nacional, a projetos inspirados no Amália ou a fine-tuning especializado para contexto português. Esta ausência pode induzir centenas de empresas a seguir o caminho errado.
O projeto Amália como catalisador
O modelo Amália, com 9 mil milhões de parâmetros e treinado em português europeu (artigo do Observador) pode ser um ativo estratégico para Portugal.
Disclaimer: não conheço as equipas de desenvolvimento envolvidas, nem o estado real do projeto. Mas acredito que este tipo de projetos são estratégicos.
As vantagens de apostar no Amália são claras:
- Reduz dependência face a LLM estrangeiros.
- Garante soberania linguística e cultural.
- Permite implementação on-premises, assegurando que os dados sensíveis não saem da infraestrutura das empresas.
O problema não é a IA. É a arquitetura. Modelos cloud têm vulnerabilidades estruturais. A alternativa on-premises elimina vários vetores de ataque.
O impacto esperado da IA nas PME portuguesas
Segundo benchmarks da Comissão Europeia, OCDE, McKinsey, BCG e PwC, os efeitos são realistas e consistentes:
- Produtividade: ganhos de +15–25% no primeiro ano.
- Emprego: longe de cortar postos, a IA liberta tempo e cria novos empregos qualificados (2–3 numa PME de 50 pessoas).
- Retorno económico: cada 1€ investido gera 3-5€ em valor.
Ou seja, um investimento de 100k€ pode significar 300–500k€/ano em ganhos diretos e indiretos.
Exemplo prático com apoio do IFIC
Consideremos o exemplo de uma sociedade de advogados que investe 400k€ num sistema de IA jurídica baseado no Amália, com 300k€ de apoio IFIC (75%):
- Fine-tuning com legislação e jurisprudência portuguesa.
- Implementação em servidores próprios, mantendo dados sensíveis dentro da empresa.
- Equipa: 2 engenheiros de IA/ML contratados com formação avançada.
Resultados esperados:
- +25-35% de produtividade média.
- Redução de custos operacionais (~100k€/ano).
- Capacidade para atender +20-30% de clientes.
- Retorno líquido em menos de 12 meses.
E este exemplo replica-se na indústria, saúde, educação, comércio e serviços.
Dois futuros possíveis
Estamos numa bifurcação.
- Futuro A: Portugal como consumidor IA - PMEs dependentes de clouds externas, dados sujeitos ao CLOUD Act, zero competências técnicas criadas.
- Futuro B: Portugal como criador IA - PMEs com laboratórios internos de IA, uso de modelos on-premises, 600 engenheiros portugueses formados, soluções ajustadas aos setores nacionais.
A diferença? Critérios de avaliação que valorizem o Futuro B.
A pergunta que o IFIC precisa de fazer
Para cada candidatura que envolva APIs cloud públicas, deveria ser obrigatório:
- Avaliação de risco de prompt injection
- Plano de resposta a incidentes de exfiltração de dados
- Classificação de dados que serão processados pela IA
- Justificação do porquê não ser viável usar solução on-premises
- Garantias de conformidade com a NIS2, RGPD e AI Act para as entidades abrangidas
Porque financiar com dinheiro público uma solução que expõe dados empresariais portugueses a vetores de ataque emergentes e amplamente documentados não é inovação. É negligência estratégica.
Todos sabemos que Portugal tem o talento. Faltam criar as condições. E o IFIC pode mudar isto.
Conclusão
O IFIC não é apenas um instrumento financeiro. É uma escolha estratégica sobre o futuro digital de Portugal.
Temos até 31 de outubro (Fase I) para decidir se queremos ser apenas consumidores de tecnologia estrangeira ou construtores de um ativo digital soberano que coloque o País na linha da frente da revolução tecnológica. O futuro da IA em Portugal joga-se agora.
Henrique Necho
CEO da NECHO TECHLAW | Membro do Comité Técnico Português de Inteligência Artificial (CT 223)
Especialista em Cibersegurança, Privacidade e Governação da Inteligência Artificial.
