Em vez de alocar recursos (novamente) na Administração Pública, Portugal deve apostar numa abordagem pragmática que combine inovação tecnológica com aplicação prática em contexto empresarial.
Portugal encontra-se numa encruzilhada decisiva para o seu desenvolvimento digital. O recente anúncio da reprogramação do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), que irá reforçar investimentos em setores críticos como a saúde, ciência e tecnologia, abre uma oportunidade única para alocar recursos ao fortalecimento do empreendedorismo digital. A aposta no apoio às Pequenas e Médias Empresas (PMEs) para desenvolverem Laboratórios Internos de Inteligência Artificial, que permitam explorar as potencialidades dos novos sistemas de IA, seja na otimização dos seus atuais processos de negócio seja na criação de novos produtos, serviços e modelos de negócio, pode ser um dos pilares fundamentais para o crescimento sustentável e competitivo da (já débil) economia portuguesa.
A necessidade de reorientação estratégica
O Ministro da Coesão Territorial, Manuel Castro Almeida, argumenta que a reprogramação do PRR será uma “grande oportunidade para reforçar equipamentos”, designadamente na área da ciência, inovação, investigação e tecnologia, com foco nas universidades e centros de investigação.
Embora tais investimentos sejam essenciais para o progresso científico, é crucial reconhecer que a verdadeira alavanca para o crescimento económico sustentável e o reforço da resiliência tecnológica de Portugal está muito assente nas PMEs empreendedoras. O facto é que desde 2020 que as economias comparáveis a Portugal na EU cresceram 5 vezes mais que o nosso país, Portugal está no meio da tabela no Ranking Mundial de Competitividade, o FMI estima que a Europa Ocidental continue a marcar passo no crescimento económico em 2025 e que a economia portuguesa poderá perder mais 4 posições na UE até 2029. Por outro lado, a fuga de cérebros talvez seja um dos fatores que mais prejudica a atratividade de Portugal para profissionais qualificados, tendo ocorrido uma queda de 12 posições em apenas 4 anos. Como tal, e também face a esta fuga de cérebros, não admira que Portugal seja o 5.º país europeu onde as pensões têm um peso maior face à economia nacional e, portanto, coloque em risco a sua capacidade de sustentabilidade a longo prazo.
A necessidade premente de investir na Inteligência Artificial
Adivinhe o leitor onde está localizada a maioria das 50 Startups de IA mais promissoras do mundo? Sim, essa que é considerada uma das tecnologias mais transformadoras do nosso tempo e cujo impacto, profundo, já está a afetar (quase) todos os setores e modos de vida da sociedade? Se pensou em “Europa” sugiro que medite no assunto (ironia).
A nível global, nos Estados Unidos, o Presidente Trump está a apostar fortemente no Projeto Stargate, uma iniciativa liderada pela OpenAI e outras grandes tecnológicas. Este terá um investimento de 500 mil milhões de dólares para assegurar a liderança americana em IA.
Na Europa, a Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, apresentou a nova estratégia europeia denominada Bússola da Competitividade. Esta estratégia estabelece três grandes objetivos para tornar a economia comunitária mais competitiva face à dura competição geoestratégica: reduzir o défice de inovação em relação aos concorrentes globais, definir um roteiro comum para a descarbonização e competitividade, e reforçar a resiliência e segurança económicas.
Na China, uma startup lançada em 2023, apresentou este mês de janeiro o DeepSeek R1, um modelo de IA que está a agitar o sector tecnológico e desafia o domínio do ChatGPT. Trata-se de um modelo open-source, low-cost, e que, entre outros, pode correr nos servidores internos de uma organização que o pretenda testar e implementar. E sem necessidade de “exportar” para a Cloud os seus dados de negócio ou as suas passwords... O DeepSeek já é apelidado de momento Sputnik da IA.
Portugal não pode ignorar esta tendência e deve reprogramar a sua própria estratégia para competir neste cenário em rápida evolução. A necessidade de investir nas PMEs torna-se ainda mais premente face à nova estratégia europeia e, também, a Americana e a Chinesa. Portugal precisa de se alinhar com esta nova visão, promovendo um ecossistema empresarial mais robusto e inovador através de, designadamente, Políticas Públicas de incentivo à disseminação da IA nas PMEs.
Os uses cases que as organizações empreendedoras podem testar
Nos últimos meses têm surgido vários use-cases interessantíssimos no panorama global de fóruns de engenheiros de IA, que demonstram que este ano de 2025 pode ser o tal ano Sputnik da IA. Os exemplos são vários:
Atendimento ao Cliente (gestão de emails/contactos) – um potencial cliente solicitou uma proposta para a implementação de um AI Agent, para analisar e categorizar automaticamente os 15.000 emails diários que a organização recebe, com o objetivo de os encaminhar para os departamentos corretos e/ou criar automaticamente tarefas e ações nas aplicações empresariais de vendas e faturação, compras, tickets de suporte, etc…
Atendimento ao Cliente (call centers) – um cliente pretende analisar a implementação de um AI Assistant para o seu centro de contacto para interagir com os seus pacientes e clientes criando as tarefas e/ou ações automaticamente nas aplicações empresariais de agendamento de consulta e exames, faturação, alteração de agendamento, etc… Este cliente atua na área da saúde e é abrangida pela NIS 2. Vamos também ter de o conquistar para o bright side da IA.
Educação – um outro potencial cliente está a analisar a implementação de um AI Assistant para a personalização do ensino. Sendo uma Instituição do Ensino Superior Privado, sugerimos-lhe a implementação uma ferramenta de suporte contínuo e personalizado aos seus alunos através de um “Tutor Virtual Personalizado”, incluindo a automatização de FAQs e o suporte administrativo. Aqui, o mais desafiante vai ser o fine-tunning do LLM à realidade cientifico-educativa quer da instituição quer do aluno.
Indústria – um cliente está a analisar a implementação de um sistema colaborativo de AI Agents para melhorar a “Manutenção Preditiva” no chão de fábrica, no caso, a análise de dados de sensores para prever falhas em máquinas antes que estas ocorram, com a consequente redução de custos financeiro- operacionais em resultado de paragens não planeadas. Atua na área da produção alimentar e é abrangido pela NIS 2. Mais um cliente a conquistar também para o bright side da IA.
Cibersegurança – aqui somos nós o cliente. A nossa ferramenta em fase final de desenvolvimento, o cybersecure.pt, vai ter que implementar duas novas funcionalidades inteligentes e bem avançadas: (1) Deteção e Resposta a Ameaças em Tempo Real e (2) Threat Intelligence. Tal será conseguido pela implementação de AI Agents colaborativos de monitorização do tráfego nas redes internas de comunicação, identificar comportamentos suspeitos e responder automaticamente a incidentes de segurança. Irá fazer a análise de fontes externas (dark web, open-source intelligence, CVEs) para identificar possíveis ameaças direcionadas à organização para, em tempo real, produzir recomendações de ações corretivas baseadas em dados históricos. Uma análise preditiva para prevenir ataques antes que estes ocorram. Vai ser o momento Sputnik do nosso IA Lab.
E agora Portugal, continuamos na Zona de Conforto ou Criamos um Futuro de Inovação?
Chegados aqui, e para que Portugal possa acompanhar estas tendências globais e europeias, é essencial a adequada reprogramação do PRR com inclusão da IA. Esta reprogramação deverá centrar-se em 3 pilares fundamentais:
- Investimento em Infraestrutura Tecnológica: Desenvolvimento de centros de inovação e laboratórios internos de IA que forneçam às PMEs os recursos necessários para realizar pesquisa e desenvolvimento pragmático de soluções baseadas em Sistemas de IA. Tal deverá incluir soluções de AI Agentsou AI Assistants implementadas no contexto interno da organização.
- Capacitação e Formação: Implementação de programas de formação especializados em IA para decisores, gestores, profissionais especializados e colaboradores, garantindo a aquisição de competências essenciais para a transformação digital inteligente (Literacia IA)
- Incentivos Fiscais e Financeiros: Criação de linhas de financiamento e benefícios fiscais para empresas que integrem Sistemas de IA nos seus processos de negócio, promovendo a inovação e a competitividade, mas, acima de tudo, promovendo a resiliência económica.
Continuamos a Alimentar a Burocracia ou Apostamos no Empreendedorismo?
Em termos comparativos, uma PME empreendedora ou uma Startup, com um milhão de euros de investimento consegue adquirir o hardware e software necessários, capacitar e investir em 2 ou 3 recursos pelo período de 1 ano e, assim, lançar as bases de um Laboratório Interno de Inteligência Artificial.
É esta a agilidade das organizações empreendedoras.
Conclusão
Em vez de alocar a maioria dos recursos (novamente) na Administração Pública, Portugal deve apostar numa abordagem pragmática que combine inovação tecnológica com aplicação prática em contexto empresarial. As PMEs necessitam urgentemente de investimentos direcionados para se tornarem mais competitivas, resilientes e capacitadas tecnologicamente.
Alinhar a reprogramação do PRR com visão inspiradora da “Bússola da Competitividade” da UE ou o Projeto Stargate americano deverá ser, acima de tudo, um desígnio nacional, que poderá permitir a Portugal acompanhar a evolução económica global e, assim, posicionar-se como um polo de inovação e crescimento sustentável.
Este é o momento de escolher entre Burocracia ou Inovação.
NOTA DO AUTOR: Este artigo contou com o apoio de ferramentas de Inteligência Artificial no processo de pesquisa e preparação. A integração de IA no desenvolvimento de conteúdos não só facilita a análise de dados complexos, como também contribui para uma escrita que alia precisão técnica à criatividade literária. “De facto, nunca como hoje se nota tanto a aproximação da ‘engenharia’ à qualidade e criatividade da escrita tão associada às ‘humanidades’. Sinais dos tempos.”
O Autor é membro da Comissão Técnica 223 sobre Inteligência Artificial (IA) e especialista nacional no Grupo CEN/CENELEC JTC 21. Este grupo de especialistas desempenham um papel fundamental na coordenação e desenvolvimento das novas normas europeias sobre IA, para a normalização do Regulamento Europeu da Inteligência Artificial, sob a égide da Comissão Europeia.
Imagem: Irina Block
Nota: Artigo publicado originalmente no Jornal Observador
